Arte por Cinthia Crelier

por Rafael Nery

01- Olá Michel, tudo bem?Inicialmente obrigado pela entrevista. Quando se iniciaram os preparativos para este novo álbum?

Eu é que agradeço pela oportunidade, Rafael. Comigo está tudo bem, estamos aí na luta pra tocar música onde for possível! Quanto aos preparativos do álbum: comecei a tocar o repertório desse disco logo após lançar o disco anterior "Michel Leme & A Firma". Isso foi em 2008. Desde lá deu um tempinho pra conhecer melhor as músicas pra tomar certas liberdades com elas, inclusive no momento da gravação.

02- Como surgiu a idéia de trabalhar com dois bateristas? O que você acredita que isto somou no resultado final do disco?

Fiz uma sessão no Estúdio Cantareira com o Bruno Migotto (baixo) e o Waguinho Vasconcelos. Nessa sessão valeram as músicas "3 Notas" e "Blues de Ocasião" - que é a faixa em vídeo. Depois dessa sessão, recebi um telefonema do Bruno Tessele dizendo que estava na área de novo - já que ele havia se afastado por problemas de saúde um tempo e voltou ótimo. O Tessele foi o primeiro batera a tocar essas músicas, depois toquei um tempo em trio com o Migotto e o Waguinho. Então, faltando uma semana para a segunda sessão, realizada no auditório da EM&T Jabaquara, liguei pra todos dizendo que gravaríamos com duas bateras tocando ao mesmo tempo. Todo mundo topou e, horas antes de gravar, apresentei o Tessele ao Waguinho e simplesmente começamos a tocar gravando. O que se ouve no disco são apenas takes 1 ou 2, sem overdubs, correções ou quaisquer maquiagens. Gostei muito de como soou essa formação com duas bateras. Ficou, no mínimo, diferente, além de ter sido uma ótima experiência.

03- Você faz algumas dedicatórias no encarte, por favor comente-as.

Dedico a música "3 Notas" a todos que se comunicam comigo através da internet, o que acontece intensamente há seis anos, desde que meu site entrou no ar. Por essas pessoas sou quase um nerd! Mas aprendo muito com todas as trocas de idéias que rolam e sou agradecido a esse pessoal, mesmo.

"Ananda Moy Ma" é dedicada à santa da Índia que descobri no livro "Autobiografia de um Iogue" de Paramahansa Yogananda. Fiquei fascinado com as descrições dele a respeito da “Mãe Saturada de Bem-Aventurança” e gostei muito da frase atribuída a ela "eu sou tudo o que você achar que eu sou". Acho libertador o conteúdo dessa frase, principalmente nos dias de hoje onde todos os padrões são ditados pela burguesia, que vem massacrando a individualidade e instituindo uma uniformidade nefasta, que tem como fim apenas para eternizar o jugo do capital. Acreditar que “eu sou tudo que você achar que eu sou” serve como um kit de primeiros socorros na sociedade de hoje, ao meu ver.

"Samba dos Excluídos" eu dedico a todos que fazem arte de forma honesta. Só essa maneira de se envolver com a arte já exclui a pessoa do esquemão das gravadoras, do jabá, da mídia cada vez mais vendida e, resuminto, do sistema, não é? Quis me solidarizar com essas pessoas e dizer que estamos juntos lutando a mesma luta.

04- Além das 6 faixas, podemos conferir um vídeo extra da faixa Blues de Ocasião. Esta faixa se trata de uma jam ou foi algo previamente escrito?

Os caras já conheciam as partes da música que são uma intro em 7/4, uma ponte e o blues. Só que ninguém sabia o que entrava aonde! As coisas foram acontecendo na hora, na base do contato visual mesmo. Achei que ficou divertido. O título "Blues de Ocasião" tem a ver com a melodia principal que está na forma do blues em F maior, mas que não é fixa, já que a cada ocasião eu faço uma.

05- Como foi todo processo de composição do álbum?

As músicas foram nascendo na minha casa ou tocando ao vivo.

A que nasceu tocando em grupo foi "Ananda Moy Ma", que surgiu numa das primeiras transmissões da extinta TV Cia da Música, no que viria a ser o Programa Michel Leme & Convidados. Eu estava tocando com o Deco (baixo) e o Digão (batera que gravou no meu disco "Quarteto") e a música surgiu na hora, ao vivo pela internet. No "5°" entraram umas partes a mais nessa composição, improvisadas coletivamente.

As outras foram surgindo em casa mesmo, tocando provavelmente no meu velho e bom Del Vecchio da década de 1940, que herdei do meu avõ Durvalino Leme.

06- Após algumas audições podemos notar que o álbum é repleto de belos improvisos com um fraseado jazzístico e de música brasileira. Ao improvisar você se foca em

alguma escala específica ou simplesmente "deixa fluir"?

Não vejo uma oposição entre os termos "escala específica" e "deixar fluir", Rafael.

O que acontece, em primeiro lugar, é que cada acorde tem suas "exigências". Por isso, deve-se conhecer muito bem uma música antes de tocar por aí, ou, no mínimo, ter as bases para improvisar sobre algo que não se conhece muito bem. Mas, para se tocar dentro da forma e da harmonia deve-se ter o conhecimento e o devido convívio com cada tipo de acorde pra, com o tempo, tocar cada vez mais com base na intuição, no instinto - coisa que trabalho muito com os caras que estudam comigo.

Em segundo lugar, e consequentemente, deve-se sempre deixar a música fluir! Isso é o aspecto divino e inexplicável da coisa. Sem isso, não há música. E a luta é estar num estado no qual isso seja cada vez mais possível - e é uma luta diária.

07- Você conta com diversos patrocinadores neste trabalho. Alguns já te acompanham desde de trabalhos anteriores, qual foi a importância destes para a finalização do mesmo?

O apoio cultural desse disco veio dos parceiros: D'Addario, Nux, Rotstage, Sho-You áudio e vídeo, Playtech, EM&T e espaço Sagrada Beleza. Eles viabilizaram custos e isso é muito importante. Poder contar com quem tem a visão de entrar como apoio cultural em projetos assim é algo que tranquiliza quem está afim de se concentrar cada vez mais na música.

08- Qual os equipamentos usados para a gravação do disco?

Usei minha velha guitarra acústica fabricada em 1979 cuja marca não precisa de minha divulgação; meu amplificador Libra 100 da Rotstage - desenvolvido por mim junto aos engenheiros da Rotstage -; pedais Flanger e afinador Nux; e cordas D'Addario Chromes .012 (com a corda G .022 desencapada e a primeira E .013).

09- Muito Obrigado pela oportunidade mais uma vez e deixe uma mensagem aos nossos visitantes.

É sempre uma felicidade divulgar minhas coisas por aqui, Rafael. O Guitar Clinic merece todo o crescimento e você é um cara muito batalhador que merece todo o apoio.

Desejo a todos muita saúde e muito SOM!!!!!!!!!!!

Abração!

 

Michel Leme

www.michelleme.com